Relatório: Liberdade de imprensa atinge pior nível em 25 anos

03/05/2026 em Direitos Humanos

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Relatório: Liberdade de imprensa atinge pior nível em 25 anos

Pela primeira vez em 25 anos, mais da metade dos países do mundo está em situação "difícil" ou "muito grave" para o exercício do jornalismo. A conclusão é do Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa 2026, publicado em 30 de abril pela ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF). 

Segundo o relatório consultado pelo Jornal Capital News este domingo, 3 de maio, dia da liberdade de imprensa, a pontuação média global atingiu o nível mais baixo desde que o índice foi criado. O principal fator foi a queda do indicador jurídico: desde 2001, leis cada vez mais restritivas, ligadas sobretudo a políticas de segurança nacional, têm corroído o direito à informação, mesmo em democracias. Para a RSF, há uma "crescente criminalização do jornalismo". 

Américas em queda

As Américas registram mudança significativa. Os Estados Unidos perderam sete posições no ranking. Já vários países da América Latina enfrentam uma espiral de violência e repressão contra profissionais de imprensa. 

"Inação é cumplicidade", diz diretora da RSF

Anne Bocandé, diretora editorial da RSF, cobra medidas urgentes: “Por quanto tempo ainda vamos tolerar o sufocamento do jornalismo? Estados autoritários, poderes políticos cúmplices e plataformas insuficientemente reguladas são responsáveis pelo declínio global. A inação é uma forma de cumplicidade”. 

“Precisamos de garantias firmes e sanções significativas. A expansão do autoritarismo não é inevitável”, disse.

Guerras e ditaduras pressionam 

Conflitos armados explicam parte da queda. Na Palestina, 156ª colocada, mais de 220 jornalistas foram mortos em Gaza pelo exército israelense desde outubro de 2023, pelo menos 70 no exercício da profissão. Israel caiu 4 posições. Sudão e Sudão do Sul também recuaram 5 e 9 posições, respetivamente. 

Regimes ditatoriais mantêm a imprensa sob censura total. China (178º), Coreia do Norte (179º) e Eritreia (180º) seguem no fim da lista. Na Eritreia, o jornalista Dawit Isaak está preso sem julgamento há 25 anos. A Rússia (172º) permanece entre os piores países devido à guerra na Ucrânia. 

Maiores quedas e avanços

A maior queda em 2026 foi do Níger, que perdeu 37 posições e agora ocupa o 120º lugar. A RSF aponta a degradação da liberdade de imprensa no Sahel, com ataques de grupos armados e juntas militares. A Arábia Saudita caiu 14 posições após a execução do jornalista Turki al-Jasser em 2025. 

Na contramão, a Síria subiu da 177ª para a 141ª posição após a queda do regime de Bashar al-Assad em dezembro de 2024. 

Guiné-Bissau e PALOP

A Guiné-Bissau piorou no indicador político, caindo de 104º para 115º. Em 2025, a RSF havia atribuído a queda anterior à "forte deterioração da segurança dos profissionais", além de pressões políticas e económicas.

Entre os PALOP, Cabo Verde liderou em 40º lugar no ranking de 2025, mesmo com perda de 10 posições. A RSF elogiou o ambiente de trabalho e a garantia constitucional, mas criticou a nomeação de diretores de media estatais pelo Governo. Moçambique subiu para 99º, enquanto Angola teve o pior resultado da CPLP em 109º, com queda de 9 posições devido à "censura e controlo da informação". A organização destacou ainda que, na Guiné-Bissau e Guiné Equatorial, autoridades controlam a informação e jornalistas sofrem ameaças e agressões. 

São Tomé e Príncipe não consta do índice. Dos outros lusófonos, Portugal foi 10º, Brasil 52º e Timor-Leste 30º em 2025. O ranking de 2026 foi publicado em 30 de abril. 

O relatório da RSF reforça que Europa Oriental e Oriente Médio continuam como as regiões mais perigosas para jornalistas nos últimos 25 anos. 

Por CNEWS

03/05/2026