Xenofobia na África do Sul: Sintoma de uma rotura geracional com o pensamento Panafricano

03/05/2026 em Editorial

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Xenofobia na África do Sul: Sintoma de uma rotura geracional com o pensamento Panafricano

Este ensaio examina a intensificação da xenofobia na África do Sul entre janeiro e maio de 2026 como expressão de uma crise mais profunda: a falha na transmissão geracional dos valores anticoloniais que sustentaram as lutas de libertação africanas. Argumenta-se que os ataques atuais não são apenas reflexo de fatores socioeconômicos, mas também da erosão de uma dimensão formativa fundamental, Os estudos africanos e a educação cívica, que permitia às gerações contemporâneas "pensar com a própria cabeça e andar com os próprios pés".

O desuso dos estudos africanos

A geração que hoje lidera movimentos como a Operação Dudula cresceu num vácuo pedagógico. A dimensão dos estudos africanos, essencial para compreender a trajetória de Cabral, Mandela, Nkrumah e Samora Machel, tornou-se periférica nos currículos e no debate público. Falhou, portanto, a transmissão dos valores que levaram esses líderes a combater não só o imperialismo ocidental, mas também a imposição de uma consciência colonizada. A luta era por soberania material e intelectual. O que se observa em 2026 sugere que essa segunda dimensão está em risco.

O quadro atual: 2025-2026

Desde janeiro de 2026, discursos e atos xenófobos intensificaram-se na África do Sul. O pronunciamento do Rei Zulu Misuzulu KaZwelithini, afirmando que estrangeiros “deveriam regressar a casa”, funcionou como estopim simbólico. Grupos organizados, com destaque para a Operação Dudula, passaram a barrar acesso de migrantes a serviços públicos de saúde e educação, com ações programadas para atingir o ápice em 4 de maio de 2026. Relatam-se mortes, ferimentos, saques e destruição de negócios pertencentes a moçambicanos, nigerianos, zimbabueanos e angolanos, concentrados em Gauteng, Durban e Joanesburgo.

Para além do desemprego

Reduzir o fenômeno ao desemprego e à competição por recursos é insuficiente. Esses fatores existem e são graves. Contudo, o dado mais incômodo é a "afrofobia": a violência dirige-se primordialmente contra outros africanos. Isso expõe uma contradição histórica. Mandela passou 27 anos na prisão por valores de liberdade e igualdade que hoje são negados a quem atravessa a fronteira de Limpopo. A retórica de líderes políticos contribui para legitimar esse cenário, mas a raiz parece ser pedagógica: a ausência de uma educação cívica e moral que vincule dignidade nacional à solidariedade continental.

A resposta institucional e seus limites

O governo sul-africano condenou os ataques e reforçou a fiscalização migratória. Todavia, há perceção de inércia e complacência policial. No plano diplomático, a crise é evidente. A Nigéria iniciou processos de repatriação após a morte de dois cidadãos. A RENAMO, em Moçambique, invocou a memória do apoio dado aos sul-africanos durante o Apartheid para exigir proteção. A diplomacia africana, construída sob o ideal de unidade, mostra-se hoje fragmentada e reativa.

Reerguer a diplomacia, reerguer o pensamento

A xenofobia de 2026 não é apenas um problema sul-africano. É um indicador de que algo falhou na formação das novas gerações. Quando a consciência histórica se perde, o “outro” deixa de ser um irmão de luta e passa a ser um concorrente. Reerguer a diplomacia africana com urgência exige mais que notas de protesto. Exige reintroduzir, de forma crítica e modesta, os estudos africanos como ferramenta para que a juventude compreenda por que Samora, Cabral, Nkrumah e Mandela lutaram. Só assim será possível resgatar a capacidade de “pensar com a própria cabeça”. Caso contrário, o continente corre o risco de reproduzir, entre si, as mesmas lógicas de exclusão que um dia combateu.

A Direção

Mamandin Indjai

Diretor Executivo

Por CNEWS

03/05/2026